sábado, 3 de junho de 2017

José de Alencar em Propriá


Em janeiro de 2017, durante uma visita ao Colégio Diocesano de Propriá (Sergipe), onde estudei meu curso de Magistério quando era vocacionado Marista. Visitando a biblioteca da escola com José de Alencar. Foto idealizada e realizada pelo amigo e fotógrafo Sérgio Souza. 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

O poeta Pinto do Monteiro


Eu comparo esta vida
A curva da letra S:
Tem uma ponta que sobe
Tem outra ponta que desce
E a volta que dá no meio

Nem todo mundo conhece.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Uma crônica de Ronaldo Correia de Brito



MEMÓRIA DE LIVROS E BIBLIOTECAS


            A lembrança mais remota que tenho de bibliotecas vem associada a caixotes e malas. Numa caixa de madeira, mamãe levou para a casa do sertão dos Inhamuns, onde nasci, o pequeno acervo de professora primária, depois de se casar com um rapaz que fora seu aluno. A preciosa carga compunha-se de algumas antologias, gramáticas, volumes de aritmética, geografia e história, e do livro que marcou profundamente minha vida: A História Sagrada, uma seleta de textos do Antigo e Novo Testamento.
            Os livros eram objetos tão raros nesse mundo sertanejo, medievalmente fora do tempo, que um parente rico incluiu entre os bens de partilha do testamento uma minúscula biblioteca de noventa volumes. Hoje, com o dinheiro apurado na venda de um único boi, das centenas que ele deixava, afora as terras e outros rebanhos, seria possível comprar dezenas de livros. Naquele tempo, os objetos de papel impresso davam respeito e distinção, criavam uma aura de sabedoria e nobreza em torno dos seus afortunados donos.
            Não falarei das bibliotecas humanas, embora não deixe de mencionar os homens e mulheres que guardavam na memória centenas de narrativas da tradição oral e costumavam contá-las para platéias deslumbradas, geralmente crianças. Plantados em suas casas, no fundo de uma oficina ou quintal, ou então viajando pelo mundo, pernoitando em engenhos e fazendas, esses guardiões da memória se assemelhavam aos personagens que em outras culturas foram responsáveis pela criação e divulgação de contos, poemas e epopéias mais tarde fixados em livros como Mahabharata, Ramayana, Epopéia de Gilgamesh, Ilíada, Odisséia e várias narrativas bíblicas.
            Falemos das bibliotecas em malas. Também essas exerciam grande fascínio sobre mim, mas deslumbravam, sobretudo, as pessoas humildes moradoras do campo. Nos dias de feira, era comum assistir-se o espetáculo de um vendedor pondo uma lona ou uma esteira de palha no chão, espalhando sobre ela dezenas de livrinhos impressos nas tipografias, em papel barato de jornal, com capas ilustradas por xilogravuras. Tratava-se dos folhetos de cordel ou versos de feira, como também eram chamados.
Para atrair compradores, o vendedor punha alguma coisa extravagante no meio dos cordéis: um tatu, uma serpente, a caveira de um jumento… Formado o círculo de curiosos, ele anunciava os títulos das obras, geralmente com um subtítulo: “Não deixe de comprar O amor de um estudante ou o poder da inteligência; O mundo pegando fogo por causa da corrupção; Vida, Tragédia e morte de Juscelino Kubistchek; O sofrimento do povo no golpe da carestia; Os homens voadores da Terra até a Lua; A filha do bandoleiro; Peleja de Serrador e Carneiro”… Depois escolhia o folheto mais instigante e começava a cantá-lo ou recitá-lo. O ator vendedor sempre possuía boa voz, movia-se com desenvoltura no pequeno palco, provocava a plateia, criava suspense, fazia rir e chorar e intuía com precisão o que as pessoas desejavam ouvir.
            Durante décadas os folhetos representaram os best-sellers das populações pobres do nordeste do Brasil. Mesmo quem não sabia ler comprava os livrinhos, pelo gosto de tê-los guardados, ou na esperança de encontrar alguém que lesse para ele. Quando um visitante chegava a uma casa modesta do interior, depois do hospedeiro descobrir que o mesmo era letrado, ia lá dentro num quarto, arrancava de debaixo da cama uma mala de madeira ou sola abarrotada de livros – a biblioteca da família analfabeta escondida como um tesouro –, trazia os folhetos para a sala e suplicava à visita que os lesse.
            Tentei compreender as motivações das pessoas que guardam livros mesmo sendo incapazes de decifrar os sinais impressos nas suas páginas. O que significam para elas? Essa adoração da gente iletrada me parece de maior valor que a dos bibliófilos letrados. Há algo de sagrado nesse culto, o mesmo que se fazia aos Mistérios, àquilo que escapa ao conhecimento e à razão e por isso se reveste de outros significados.

Ronaldo Correia de Brito - é escritor e médico, nasceu em Saboeiro, Ceará, em 2 de julho de 1951. Foi escritor residente da Universidade de Berkley (Califórnia), participou de diversos eventos internacionais, como a Feira do Livro de Bogotá, o Festival Internacional de Literatura de Buenos Aires, o Salon du Livre de Paris e a Feira do Livro de Frankfurt. Sua carreira artística envolve as mais diferentes linguagens, como literatura, teatro e música. São de sua autoria O baile do menino deus (teatro), Lua Cambará (disco), Faca (livro de contos), Galiléia (Prêmio São Paulo de Literatura), Estive lá fora (romance) e O amor das sombras (contos).






quinta-feira, 18 de maio de 2017

Meu poetinha querido

SONETO DE SEPARAÇÃO
Inglaterra , 1938

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes
Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da Inglaterra, setembro de 1938

O poetinha Vinicius de Moraes



terça-feira, 16 de maio de 2017

Sarau na Pedra Só - Filme


SARAU NA PEDRA SÓ - Sarau de poesia na fazenda Pedra Só, retiro do poeta José Inácio Vieira de Melo. O evento aconteceu na noite de 17 de dezembro de 2016 e reuniu vários artistas ligados à palavra poética e à música, que recitaram seus versos e cantaram suas canções, em torno de uma aconchegante fogueira.


domingo, 14 de maio de 2017

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Profundanças 2: antologia literária e fotográfica


Organizada pela poeta e professora Daniela Galdino, "Profundanças 2: antologia literária e fotográfica" reúne, em sua maioria, autoras inéditas, há também aquelas que já publicaram livro autoral. Essa antologia integra um amplo projeto de difusão literária e se soma ao primeiro volume, lançado em 2014. A intencionalidade do projeto é conferir visibilidade às produções que encenam formas sensíveis e dissidentes de autorrepresentação. O livro é resultado de uma ação colaborativa e sem fins lucrativos, portanto, ficará disponível para download gratuito por tempo indeterminado nesta página.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Chico de Assis e Jorge de Lima

Dois grandes nomes da Cultura Brasileira.

domingo, 23 de abril de 2017

Poética na incorporação: livro de Igor Fagundes


ODISSEIA DA LINGUAGEM 

Poeta, ensaísta, crítico literário, ator e professor de Filosofia, Estética e Dança no Departamento de Arte Corporal da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Igor Fagundes digere as bases de formação do pensamento ocidental e oferece em seu oitavo livro (o quarto de ensaio), Poética na incorporação, uma odisseia da linguagem. Seduzindo-se pelo canto das sereias e das musas, restitui-se como espaço privilegiado do exercício do humano, da experimentação e da resistência. Para tanto, evoca as gestualidades vocais de Maria Bethânia e a poesia escrita de José Inácio Vieira de Melo, deitando-as na encruzilhada de Exu, orixá mensageiro das travessias, e assim promove a desconstrução de estereótipos promotores de discriminação e preconceito.
Fruto de tese de doutorado em Poética pela UFRJ, o livro revela um escritor avesso ao lugar-comum a que o conceito oswaldiano de antropofagia acabou se reduzindo, e que faz da escrita, com seu formato ensaístico, um libelo ao pensamento. Em Igor Fagundes, a escrita pensa: desdobra-se para dentro e para fora de si, investigando-se. Só por isso já merece leitura e atenção. Mas vai além. Cruza mitos africanos, bíblicos e gregos para remexer nossa ontologia cultural, problematizando, por exemplo, recentes ideias de autoficção ou escritas de si. E também restaura a questão sobre o que é ser brasileiro e sobre o que significa pensar e escrever num Brasil “expatriado”, “ainda e sempre na promessa de um descobrimento”. País que “há de ser o mistério de cada voz no silêncio e pelo silêncio transatlântico de todo lugar”.
Em suas especificidades e “dentro de um só mocó”, Exu, Cristo e Hermes incorporam no palco e terreiro deste Ulisses brasileiro e pirata que Igor Fagundes se torna, colocando “Ítaca bem no meio da gira” e atravessando o mar da sofia. Mar que também é sertão (pois, mencionando Guimarães Rosa, “o sertão está em toda parte, é dentro da gente”). Fagundes leva o sertão para dentro do texto, “sempre na volta adiável”, com eternos retornos, torneios da linguagem. Daí que testa o uso das palavras, rascunha e dobra os sentidos ao escrever, deixando sempre o rastro da escrita, da incerteza.
Se a poesia de José Inácio tem como referência os cordelistas e o aboio; se a voz de (sua musa) Maria Bethânia — “cantora encruzilhada” — guarda o canto das sereias, Igor Fagundes imprime em seu texto a marca do popular, do artesanal, do mítico. E o faz sintonizado, ainda que não cite, com um dos mais enigmáticos aforismos de Oswald de Andrade: “Só podemos atender ao mundo orecular”. Amalgamando “auricular” (de ouvido) e “oracular” (de oráculo), investe no sentido da audição, na escuta como acesso ao conhecimento, descarregando o divino na histórica objetivação capitalista.
A demanda pela voz atravessa todo o livro e é sua potência. Para além do registro escritural, a voz poética desconstrói verdades e quebra hábitos de leitura. O projeto ocidental de emudecimento do poético e, por sua vez, de ensurdecimento do ouvinte-leitor é radicalmente atacado. Entre silêncios e vazios, o leitor é chamado a tomar posição e a pensar com o corpo todo sobre o já dado, o já estabelecido na cultura dos conceitos, no fetiche da ciência que despreza as religiões: “no arcaico, sábio é o poeta, o bardo, o cantor, o incorporado”. Tomado “pelo princípio enquanto princípio, pelo milagre do agora abissal”, Igor Fagundes emula Maria Bethânia e José Inácio direcionando o leitor para um grau zero da escrita, para uma fronteira onde o escrito por si só não basta. Considerando que a musa é a fonte de uma mensagem enviada apenas ao poeta e a sereia, a portadora do canto audível aos ouvidos humanos, em Poética na incorporação a linguagem é musa e a escrita é sereia que seduz e engendra o desconforto do leitor.
Labiríntico e distante das simplificações dos manuais que criam dicotomias preguiçosas para apressados, o livro orienta antigo e moderno, tradição e traição, a fim de sustentar a hesitação geradora do pensar. Na invenção do humano, cantando o ciclo da origem, do ser se dando na linguagem, as disputas pelas heranças patriarcais são substituídas pela generosidade erótica dos contatos. Em estado de poesia, vendo o mundo “pelos olhos da esfinge”, sendo o enigma, não o decifrador, Igor Fagundes reafirma a literatura como saber: da linguagem e de um ser humano retirante, itinerante, nômade.

Resenha publicada no Jornal Rascunho

Para adquirir mais livros de Igor Fagundes:



quinta-feira, 20 de abril de 2017

Damário Dacruz: oficina do Projeto OXE


Certo voo

Cada
pássaro
sabe
a rota
do retorno.

Cada
pássaro
sabe
a rota
de si.

Cada
pássaro,
na rota,
sabe-se
pássaro.

Damário Dacruz

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Manuel Bandeira: imagem, poesia e vida.


Um poeta que leio sempre. Poemas para todos os dias. Meu querido poeta pernambucano Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

"O Alienista" de Machado de Assis


Para meus queridos alunos do IFBA campus Santo Amaro. Para todos os amantes da nossa boa Literatura Brasileira. O Mestre Machado de Assis.
 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Poema de Narlan Matos



CALENDÁRIO

é preciso esquecer de março
para que abril finalmente aconteça
deitar-se sob a sombra de janeiro
para que o abismo de junho desapareça

de quem é esta face por detrás da hera?
ao longe o luar etéreo repousa leve e branco
sobre lírios de absinto e quimera

resta ainda a relva de setembro
e azaleias da tarde
e as latitudes do silêncio

não é a morte que eu busco, amiga
quando chegam tuas palavras na brisa
quando oferece-me o frescor de tua tez
e a Via-Láctea de repente renasce
calma nas rosas silvestres do prado
ou quando abres as imensas pétalas
do teu sorriso lindo e branco (um lírio?)
para a noite da minha existência

CALENDARIO

bisogna dimenticare marzo
perché finalmente arrivi aprile
sdraiarsi all’ombra di gennaio
perché l’abisso di giugno scompaia

di chi è questa faccia dietro l’edera?
lontano il chiar di luna riposa lieve e bianco
sopra gigli di assenzio e chimera

resta ancora l’erba di settembre
e azalee del pomeriggio
e le latitudini del silenzio

non è la morte che cerco, amica
quando giungono le tue parole nella brezza
quando mi offri la frescura della tua pelle
e la Via Lattea all’improvviso rinasce
calma nelle rose silvestri del prato
o quando apri i petali immensi
del tuo sorriso bello e bianco (un giglio?)
per la notte della mia esistenza

Narlan Matos - poeta brasileiro com vários livros publicados. Vive nos Estados Unidos e sua poesia já foi traduzida para vários idiomas. 

Tradutor: Giorgio Mobili




segunda-feira, 3 de abril de 2017

Poema de Roberval Pereyr



Amálgama

O exercício da mentira
assevera-nos o rosto;
petrifica-nos o busto
e engrandece-nos a ira. 

O exercício da mentira
engrandece-nos as posses;
ajoelha-nos em preces
sob o teto das igrejas. 

O exercício da mentira
faz-nos fortes barulhentos;
tece grandes pensamentos
para encher-nos de amarguras. 

O exercício da mentira
faz-nos lúcidos, divinos;
torna os animais humanos
e torna os deuses caninos. 

O exercício da mentira
(por que tamanha maldade?)
concedeu-nos - que loucura! -
o exercício da verdade. 

Roberval Pereyr

Nasceu em Antônio Cardoso (Bahia, 1953). Vive em Feira de Santana. É poeta, ensaísta e professor na UEFS. Publicou os livros de poesia: Iniciação ao estudo do um (com Antônio Brasileiro, em 1973); Cantos de sagitário, (1976); As roupas do nu (Coleção dos Novos, em 1981); Ocidentais (1987) e O súbito cenário (1996). Publicou nas revistas: Tapume, Hera e Serial. Vencedor do Prêmio da Academia de Letras da Bahia 2010.


domingo, 2 de abril de 2017

Meu poema "dedos"

Fotografia by Ricardo Prado
Sarau na Fazenda Pedra Só 2016


dedos

algum dia serei mais que poesia
recitada pelos
bares
ruas
praças
serei traça corroendo os mapas
da vida
com seus destinos traçados pelo vento

esse deus estrangulado pelos meus dedos


Cleberton Santos
Do livro "Travessia de abismos" (Editora Via Litterarum, 2015)

sábado, 1 de abril de 2017

A poesia de Helena Parente Cunha


Helena Parente Cunha (Salvador, BA, 1930). Ensaísta, poeta, contista, romancista, professora e tradutora. Em 1949, ingressa no curso de graduação em letras neolatinas da Universidade Federal da Bahia - UFBA, que conclui em 1952. Dois anos depois, ganha bolsa de estudo da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior - Capes para se especializar em língua, literatura e cultura italiana em Perúgia, Itália, na Università Italiana Per Stranieri. Começa a trabalhar como tradutora em 1956, com o livro A Educação da Criança Difícil, do psicólogo italiano Dino Origlia. Muda-se para o Rio de Janeiro em 1958, e, dez anos depois, publica seu primeiro livro de poemas, Corpo no Cerco. Segue carreira acadêmica na área de letras: mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, de 1969 a 1972; doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, entre 1974 e 1976; livre-docência, em 1976; e pós-doutorado novamente na UFRJ, de 1992 a 1994. Estuda na Università Degli Studi Di Firenze, na Itália, em 1978. Começa a trabalhar como professora adjunta na UFRJ no ano seguinte e torna-se titular em 1984. Ainda em 1979, publica seu primeiro livro de ensaios, Jeremias, a Palavra Poética: Uma Leitura de Cassiano Ricardo. O primeiro livro de contos, Os Provisórios, é publicado em 1980. Desenvolve desde o fim dos anos 1980 pesquisa sobre a representação feminina na literatura e a produção de escritoras brasileiras do século XIX ao início do XXI.





sexta-feira, 31 de março de 2017

Conto de Rubervânio Rubinho Lima

Obra de Romero Britto
Tempo e Espera
  
Ontem ficamos até tarde, um olhando para o outro, na cama. Não queria adormecer. Queria ficar contemplando-a a madrugada toda. Parece que ela não queria dormir também, mas, enfim, seus olhinhos foram baixando devagarzinho, até que penderam e se grudaram. Aquilo tudo era um êxtase. Não quero nem relembrar tudo quanto passei para podermos estar juntos. Só Deus sabe o quanto sonhei com esse momento, o de tê-la ali em meus braços. A espera me matava. Estava um tanto aflito, por achar que não mais gostaria de mim. Isso também me apavorava. Afinal, passei uma eternidade sem vê-la. Agora é só essa a visão que quero ter. A televisão ligada, sem áudio, só para clarear o quarto. Nenhum filme da madrugada me chamaria atenção. Eu nem queria. Só queria contemplá-la. Era uma sensação de protegê-la que me impulsionava a querer aconchegá-la mais e mais em meus braços. Ela era só sono. Acho que deveria sonhar também. Sonharia conosco? Sonharia sim. Também desejou muito aquele momento. Em seus lábios, um sorrisinho angelical e sem mácula denunciava que sonhava com coisas felizes. Depois de passarmos quase a noite toda, desde o momento em que ela chegou, a procurarmos reaver todo o tempo de distância, o sono era inevitável. Estávamos exaustos, mas com tanta alegria... Comecei a ficar com os olhos pesados. Tentei resistir ao cansaço, pois o tempo ao lado dela era precioso. Segurei na sua mão macia e pequena, tentando alentar-me e fui rememorando os minutos que antecederam esse momento. Fui relembrando da nossa conversa. Tínhamos muitas e muitas coisas para conversarmos. Os assuntos até se atrapalhavam, de tão acumulados. Ela sorria. Sorria de tudo que eu dizia ou fazia. Seu rostinho, seu sorriso, tudo me alegrava. Eu acabei dormindo e nem me recordo em qual momento. Dormi um sono tranquilo e sonhei um sonho bom. Um sonho de que não nos separaríamos nunca mais. Ela era minha pra sempre. Eu caminhava por um bosque florido, com ela segurando minha mão e sorrindo o tempo todo. Enfim, acordei. Fazia um friozinho pela manhã, pois agora é inverno e nesses dias a gente nem quer se levantar. Hoje estava bom pra ficar na cama até mais tarde. Resisti à preguiça. Levantei-me de um salto, com ela ainda a dormir. Fiz um esforço para tirar meu braço de sua cabecinha linda sem a acordá-la. Preparei um café bem caprichado, com chocolate quente e torradas, com ela sempre gostou. Acordei-a, enfim. Já por volta das nove horas. Ela adorou a refeiçãozinha matinal na cama e eu me contentei apenas em vê-la comendo. Estava eufórico com ela, bem ali na minha cama, na minha casa e não existia fome. Alimentava-me do seu riso, da sua face meiga. Eu a amava mais que tudo. Não havia muito tempo que descobrira isso. Ficou a me relatar mil e um casos em que vivera. Eu bebia todas as suas palavras. Vez por outra acariciava seu rosto e a beijava na testa. Às onze horas, meu coração começou a apertar, pois já se aproximava um momento que não desejaria que acontecesse. Ela iria partir ao meio dia. Contra a minha vontade, contra a dela, mas era o certo. Enfim, sua mãe a veio pegar. Estava no acordo, depois da nossa separação, mas para mim é sempre difícil aceitar isso. Agora minha filhinha se foi para outro estado, novamente, e só a verei no próximo ano, quando for o seu aniversário de dez anos. Essa separação é uma tortura, mas tenho que aguentar. Vou passar o resto desse sábado para reviver tudo que passamos ontem, eu e a minha querida menininha.


Rubervânio Rubinho Lima é da cidade de Paulo Afonso, Bahia, tem 32 anos e escreve contos desde os 17. Possui Três livros publicados, sendo “Conversas do Sertão” (contos), “Regionalismo Sertanejo” (estudos literários) e “Outras Conversas do Sertão” (contos), além de ser co-autor de outros livros sobre temas como cordel, cangaço e cultura popular. É blogueiro e mantém dois blogs, conversasdosertao.com e pobresofre.com, fazendo parte dos que dedicam uma parte do seu tempo para entreterem pela internet. Membro da ALPA – Academia de Letras de Paulo Afonso, do GMPA – Grupo multicultural de Paulo Afonso, além de sócio da SBEC – Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço. Criador também do Café Cultural, evento literário mensal que visa promover um bate-papo com autores da região onde mora. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Poemas de Assis Freitas

O poeta português Luís de Camões. 


metaplágio para todos Camões

quando penso em teu corpo
pesa-me uma nuvem no peito
és tão miragem nessa viagem
que embaraço-me nos passos

miro um espelho de jorro fácil
desconcerto-me de tanto laço
desencontro-me de contente
ando elétrico entre as gentes

quando penso em teu corpo
habita-me a fortuna secreta
a graça suave do encantamento
o desassossego do pensamento


Ária de providência para sopro de comunhão

Eu não sei como nascem os anjos
Mas acredito em epifanias
Na raiz de quimeras, alvoradas
Na saliência do silêncio
No movediço das palavras

Eu não sei como nascem os anjos
Nem mesmo sei destes espinhos
Das lâminas afiadas em um corpo
Só sei do rasgo, do soluço, do grito
Do verbo que não nomeia, mas urge


Assis Freitas é poeta, escritor, sociólogo e mestre em Letras (UFBA). Nasceu e mora na cidade de Feira de Santana - Bahia. Publicou os livros de contos O Mapa da Cidade (1998) e O Ulisses no supermercado (2009). Como poeta, participou de diversos números da Revista Hera (1972-2005). Publica em dois blogs de poesia: o Mil e um poemas e o Árvore da Poesia

O poeta feirense Assis Freitas.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Machado de Assis: A cartomante


Vamos ouvir o conto "A cartomante" do Grande Mestre da nossa Literatura Brasileira. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

A poesia de Federico García Lorca


Um dos poetas mais fortes das minhas leituras juvenis em Propriá. Encontrei um livro deste poeta espanhol na Biblioteca Municipal de Propriá. Li e reli vários poemas. Várias vezes. Vários dias. Várias noites enluaradas. Eternamente lendo. Eternamente escutando seu verso, sua paixão, seu delírio. Um poeta para sempre em minha vida. Uma poesia em língua belíssima. Gracias querido poeta García Lorca por sua poesia! 

terça-feira, 21 de março de 2017

Literatura e cinema: Madame Bovary


MADAME BOVARY - CLÁSSICO DA LITERATURA FRANCESA


Considerado por muitos críticos e estudiosos como a maior realização do romance ocidental, 'Madame Bovary' trata da desesperança e do desespero de uma mulher que, sonhadora, se vê presa em um casamento insípido, com um marido de personalidade fraca, em uma cidade do interior. Publicado originalmente em capítulos de jornal, em 1856, o romance mostra o crescente declínio da vida - interna e externa - de Emma Bovary, que figura na literatura ocidental no mesmo degrau que Dom Quixote, o personagem de Cervantes. Ambos não se conformam com a realidade em que vivem e tanto o cavaleiro da triste figura quanto a desolada dona-de-casa oscilam entre o status de herói e de anti-herói. Madame Bovary é sem dúvida a obra-prima de Gustave Flaubert (1821-1880), escritor francês que como nenhum outro na literatura ocidental levou o estilo à perfeição, reescrevendo inúmeras vezes o texto e procurando, como um artesão, o melhor encaixe das palavras. Flaubert identificou-se de tal forma com a sua protagonista que declarou: 'Madame Bovary, c'est moi' (Madame Bovary é eu). Na sua maior obra, o escritor atingiu um grau de penetração dentro da mente da personagem principal como nunca ocorrera até então e abriu caminho para as aventuras psicológicas dos modernistas como Virginia Woolf, Marcel Proust, Clarice Lispector e James Joyce. Não por coincidência, Proust considerava Flaubert como um escritor de ruptura, por ter dado sentido e substância ao romance de análise psicológica. 
Comentário retirado do site http://www.saraiva.com.br/madame-bovary-136867.html
 

segunda-feira, 20 de março de 2017

Poema de Mario Quintana


QUEM AMA INVENTA

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!

MARIO QUINTANA



domingo, 19 de março de 2017

Entrevista com Vladimir Queiroz


Entrevista realizada por Clarissa Macedo com o escritor Vladimir Queiroz para o Programa Feira Literária, TV Monte Sião,  2016.



sábado, 18 de março de 2017

Os vaqueiros de Ricardo Prado

 Vaqueiros encourados - PE – 2016, Ricardo Prado

Vaqueiros encourados - PE – 2016, Ricardo Prado

RICARDO PRADO – fotógrafo baiano de vários diálogos artísticos.